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Comendo - e muito - e andando em Buenos Aires
Publicado em: 03/12/2014

Seja qual for o destino, sempre começamos com uma pesquisa cultural e gastronômica. Eu gosto de ver fotos e pontos turísticos, e ele prefere museus, restaurantes e shows. Também prefiro já definir o que faremos em cada um dos dias, principalmente por conta dos horários e funcionamento dos lugares. A partir daí, monto um roteiro e tentamos seguí-lo o mais à risca possível.

Em Buenos Aires, eu tive de usar um grande poder de síntese, porque tínhamos apenas três dias e parecia ser impossível condensar todos os programas em 72 horas. Mas enfim, separei o sábado para o grosso do city tour e o domingo para museus. Nós dois temos o hábito de acordar bem cedo, então imagina o sofrimento na capital argentina, cujo comércio e toda a cidade parece só ganhar vida a partir das 11 horas. Ele não liga muito de sair andando por qualquer lugar, sem saber o destino ou se terá alguma coisa interessante no caminho. Eu sou o contrário, prefiro ter tudo planejado para não ficar gastando energia à toa.

Dos museus: começamos pelo Belas Artes, aberto a partir das 9h30 aos domingos. A surpresa - boa - é ter a entrada gratuita, o que ajuda a economizar no dinheiro gasto naquele dia. Achei o acervo pequeno, se comparado a museus de belas artes da Europa, por exemplo, mas bem completo. Tem Goya, Picasso, Van Gogh, Renoir, Manet e mais alguns outros. Estava rolando também uma exposição do Júlio Cortazar com belas fotos. Ele não gostou tanto, achou um pouco decepcionante, mas disse que o Júlio Cortazar salvou a visita. Temos bastante divergências sobre museus: eu sempre acho que os grandes mestres e as obras mais conhecidas valem mais a pena; ele já gosta de descobrir coisas novas, principalmente contemporâneas.

Do Belas Artes, graças a ele, caminhamos por 25 minutos até chegar ao Malba, cujo horário de abertura é, inacreditavelmente para nós, ao meio-dia. No caminho, passamos por três praças, incluindo a Plaza das Nações Unidas, conhecida como Plaza da Flor, cuja escultura de aço imita uma flor que deveria desabrochar durante o dia e fechar à noite. Mas, graças à falta de investimento, o mecanismo está quebrado e a flor fica aberta direto.

No Malba, havia uma exposição do Julio Le Parc, além do acervo. Fico muito feliz quando visito um museu cujo projeto é novo, pensado para facilitar a circulação dos visitantes num sentido lógico. Nada pior do que não saber em qual sala entrar ou onde vai sair . . . O Malba é um belo exemplo da boa organização, mas ainda assim achei a coleção um pouco decepcionante. Tinha uma obra da Frida e alguns brasileiros importantes, como o Abapuru, da Tarcila do Amaral. Aliás, este foi o ponto de indignação dele: como pode uma das obras mais importantes da história do Brasil estar em outro país?, questionava o tempo inteiro.

Comer, comer e comer
Nem precisa falar que os principais pontos de todas as nossas viagens são as visitas aos restaurantes, barraquinhas de rua, quiosques ou qualquer outro lugar que venda comida. Na Argentina, muito além da óbvia parrilla, existem 14 restaurantes na lista dos 50 Melhores da América Latina. Se no Brasil, para visitar estes locais quase é preciso deixar um fígado para pagar a conta, com o peso argentino super desvalorizado (1 real para 4,5 pesos no mercado paralelo), fomos à farra - e à forra. Não foi nada fácil escolher quais iríamos, mas considerando que eu não sou uma aventureira gastronômica - totalmente diferente dele, que come praticamente qualquer coisa e adora experimentar coisas exóticas e diferentes -, acabamos fechando a lista naqueles cuja comida parecia ser mais adaptável ao meu paladar.

O primeiro foi o Tegui (9º colocado na lista). As impressões, nas palavras dele: “vale a visita, mas jamais o 9º lugar na lista. Percebe-se que é um restaurante bem badalado e cheio, daqueles que no Brasil eu não gosto, mas enfim. O menu-degustação foi bem instável, com alguns momentos razoáveis e outros terríveis, nada ótimo. Houve um claro problema de comunicação com garçons e a sommelier: nenhum dos dois conseguiram explicar os pratos e vinhos em portunhol ou inglês. Comemos e bebemos sem saber o que era exatamente a maior parte do tempo. Em geral, as receitas tinham ingredientes demais para um menu-degustação. Os pratos vinham apinhados de comida e muita mistura de sabores fortes e texturas, de um jeito que a mim não convence. Talvez o componente cultural faça diferença, mas para o meu paladar não salvou absolutamente nada”.

Depois do Tegui, eu já estava bem desanimada com a próxima reserva, no restaurante do chef Hernan Gipponi, ainda mais depois de descobrir que a única opção era o menu-degustação. Sempre vou morrendo de medo nesses lugares, porque sempre vão querer servir alguma coisa que eu não consigo comer. No entanto, para minha surpresa, acabou sendo um jantar muito agradável, com uma comida super bem preparada e gostosa. O preço também foi ótimo, cerca de R$ 150 por pessoa, com harmonização de vinhos. Os pratos, nas palavras dele: “esse sim é um tipo de restaurante que me faz feliz. De entrada, receitas da charcuterie, com destaque para uma língua bovina extremamente fina e saborosa. Depois, legumes e peixes empanados e fritos, tipo um tempurá, mas muito bem feitos, nada gordurosos e super crocantes. A sequência com coelho, molleja (uma glândula do pescoço cujo sabor não me agradou em nada), jámon com acelga e vitela foi de matar - no bom sentido. Para finalizar, chocolate branco com manga e limão. Incrível! O serviço e os vinhos foram excelentes, com destaque para um vinho branco feito com uvas malbec”.

Os outros dois restaurantes não valem muitas explicações, ele acha. “La Cabrera um verdadeiro banquete da tradicional parrilla argentina, com tudo o que você imaginar de acompanhamento possível. Vale muito a pena, mas vá no almoço, porque comer aquela quantidade de comida à noite é certeza de passar muito mal. Já o Sucre não vale nada: nem a visita nem os comentários, muito menos a posição que ocupava na lista de melhores da América Latina. Comida ruim e serviço mais ou menos. Um lugar para ver e ser visto”.

A cidade
Como gostamos de ficar sempre próximos ao centro das cidades, porque adoro explorar ruas e vielas que eu acho bonitinhas, optamos por um hotel localizado em San Telmo, próximo a Puerto Madera. Para escolher onde vamos ficar, sempre vejo fotos e a metragem total do quarto. Apesar de praticamente só dormir e tomar banho, gosto de um mínimo de conforto. Ele é um pouco mais prático: tem de ter wifi e só! Ficamos no Unique, suposto hotel boutique, que está mais para um Ibis, mas ainda muito inferior a este.

Vale dizer que os táxis, em sua maioria velhos, são muito baratos. Uma corrida de 12 quilômetros, 30 minutos em média, custa 100 pesos - equivalente a R$ 22, muito barato para os padrões de São Paulo. Acabamos nos locomovendo basicamente assim, porque o tempo era curto. Eu não curto muito bater papo com taxistas, mas ele sempre tentar fazer umas perguntas para descobrir coisas relacionadas a política e economia, ainda que nem sempre os taxistas entendam ou queiram falar sobre isso. O assunto universal com brasileiros em qualquer lugar do mundo, o futebol, infelizmente com a gente nunca funciona, porque não gostamos nem entendemos nada.

Caminhamos basicamente por dois bairros: San Telmo e Palermo Soho. Eu gostei mais de Palermo, que em alguns momentos lembra uma mistura de Oscar Freire com Vila Madalena. Os outros lugares me deixaram um pouco preocupada, com medo de ser assaltada. Ele vive me dizendo que isso é bobeira, mas é uma coisa natural minha. Para ele, pessoas em situação de rua ou bairros degredados não oferecem risco algum. Em geral, achei tudo muito largado, sujo, com cocô de cachorro e pichação por toda parte, sem contar o enorme número de moradores de rua. Ele comentou bastante comigo sobre o choque de realidade que sentiu: “não imaginava que a cidade estava em uma situação tão difícil. Além do abandono facilmente perceptível, tudo parecia estar meio parado por conta do crise econômica. O fato de o país ser muito jovem também me espantou: eles consideram que o país tem 204 anos, porque foi emancipado da Espanha em 1810. Também me sinto um pouco ignorante de não conhecer muita coisa sobre o país vizinho ao nosso e que sempre está no noticiário, sobretudo por conta da economia. Em São Paulo, acho que acostumei com os contrastes e diferenças, sobretudo econômicas. Mas lá, pensando na crise e na situação geral do país, ver um carrão me chamava muito mais atenção, até porque a frota realmente é muito velha no geral. De qualquer maneira, quase ninguém reclamou da situação. Fiquei com a impressão de enfrentarem as adversidades bem resignados”.

Vinhos e mais vinhos
Como a franquia de bagagem para a Argentina é de um volume por pessoa, levamos apenas uma mala, porque a ideia era trazer um volume somente com vinhos. Fomos à Winery e escolhemos 14 garrafas, das quais a maioria produzida em menor escala e com preços bem baixos, sem contar que ainda conseguimos a devolução de uma parte, por meio do tax free no aeroporto. A loja, além de ter opções intermináveis de vinhos, faz toda a documentação para a restituição e o processo no aeroporto foi muito rápido. Ponto positivo para Winery.

E não podia faltar, afinal estávamos na argentina, doce de leite e alfajores, que voltaram na mala como recordação.


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