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Terceiro dia no Marrocos: ruas apertadas e cheiro ruim em Fes
Publicado em: 16/01/2015

Ela
O dia começou logo cedo com Salim, nosso guia em Fes, esperando no saguão do riad para iniciarmos o tour pela medina de Fes. Salim é um marroquino acelerado que nos acompanhou durante o dia inteiro, ou melhor dizendo, nós é que o acompanhamos, pois ele era aceleradíssimo.

Fundada no século IX, a medina abriga a mais antiga universidade do mundo, a Al Quaraouiyine, inaugurada em 859. A cidade foi criada nos primeiros séculos do islamismo no Marrocos e é considerada uma das maiores e mais bem conservadas do mundo árabe-muçulmano. O patrimônio urbano também conservou a vida cotidiana, as profissões já esquecidas e a cultura que persistiram durante os anos e que se renovam apesar do desenvolvimento da sociedade.

Realmente foi essa a sensação que tive durante o dia: uma viagem no tempo, na qual voltei pelo menos dois séculos e que poderia facilmente descrever como estar em uma vila da idade média, com todos os clichês que conhecemos de filmes ou livros de história.

Foi sensacional! Dentro da muralha, a cidade se divide por setores: açougues, sapateiros, ferreiros, costureiros, artesãos, ceramistas, vidraceiros, mercado de especiarias, tapeceiros, bordadeiros, tingidores de tecido e lã, marceneiros, farmacêuticos, joalheiros e mais uma lista interminável de profissões. A galinha que você vai comer no jantar está lá para ser escolhida, abatida e depenada na sua frente. Estão também pessoas que sobrevivem de pequenos comércios ou até mesmo vendendo um único tipo de erva. O transporte não poderia ser mais charmoso: burros de carga estavam por todos os lados. Pode ser que a situação real de vida daquelas pessoas não seja tão romântica como eu vi, mas a verdade é que eu também não vi ninguém incomodado por estar vivendo daquele modo. Ainda haviam mesquitas, escolas corânicas, crianças correndo pelas ruas, algumas mobiletes, um movimento intenso e nenhum sinal de violência.

Acho que a melhor descrição é que Fes é o caos mais organizado do mundo.

Ainda visitamos o famoso cortume, local que permanece intacto há séculos, cujo trabalho é passado de pai para filho. O cheiro é intenso e, assim que chegamos, ganhamos ramos de hortelã para aliviar, mas no fundo não fez muita diferença. Para mim, o mais impressionante foi o que vi na rua em frente ao cortume: pilhas e pilhas de carcaças de animais; é aquela velha história, eu nunca penso de onde vem a carne que consumo e foi mais ou menos assim com o couro, apesar de eu me recusar a comprar qualquer item de couro animal nesses últimos anos, acabei comprando uma jaqueta, porque reconheci que é uma atividade manual repetida há séculos. Por isso, me pareceu normal usar o couro como vestimenta, como faziam nossos ancestrais e, apesar das minhas crenças, não fiquei com peso na consciência, mesmo vendo o processo completo que envolve o trabalho.

Finalizamos o dia num hamman, o banho marroquino, também conhecido como ritual de purificação realizado no Ramadã e obrigatório durante o ano inteiro para os muçulmanos. Não seria nada mal um banho como este ser obrigatório no Brasil… O banho é feito numa sala abobadada quente com muita água quente; no primeiro passo você é ensaboada com sabão preto, depois vem a esfoliação, que é muito forte (doí muito e a primeira camada da pele desaparece), e depois o corpo é hidratado com henna e óleos essenciais. O rosto recebe uma máscara de argila e, por último, você tem seu cabelo lavado. No final, fui enxugada igual as mães fazem com os seus bebês.

Não poderia existir maneira melhor de finalizar o terceiro dia, um dos meus preferidos no Marrocos.

Ele
Não tem como começar a falar de Fes sem ser pelo cortume que visitamos. Logo na entrada o choque: carcaças e mais carcaças de bichos empilhadas no meio da rua. O primeiro choque vem acompanhado de um cheiro terrível, que até hoje só de pensar volta ao meu nariz. Fomos até lá para visitar uma loja de produtos de couro e, logo na entrada, entregaram uns ramos de hortelã como se realmente fosse resolver alguma coisa, mas enfim . . . Desde a entrada, eu já estava me sentindo um pouco mal. Daí fomos ao terraço para ver onde o couro é tingido e depois descemos à loja para tentarem nos empurrar de tudo um pouco. A loja apinhada de blusas de couro, com um cheiro horrível e pouquíssima luz, só piorou minha situação e saí quase desmaiando. Minha pressão deve ter baixado e precisei parar um pouco para tomar água e ficar sentado; por sorte, estávamos visitando uma escola corânica e o segurança me cedeu a cadeira.

Outra memória muito forte de Fes foi o almoço na Pizza Hut. Eu sei que é incoerência estar num país diferente e optar por um fast food que eu não consumo no Brasil, mas confesso que não aguentava mais a mesma comida sem sabor e sem sal, por isso pedi ao guia que nos levasse a um shopping onde tinha o restaurante. Não é gostoso, mas ainda sim foi um alívio comer algo diferente do tagine e couscous.

A medina de Fes é muito interessante e com números superlativos: 9 mil vielas, 350 mil pessoas e um sem número de tudo quanto é tipo de comércio. Imaginem uma 25 de Março formada por ruazinhas fechadas e claustrofóbicas, com burros de carga e sujeira para todos os lados. É claro que o lugar é super interessante e representa um choque cultural para mim, mas no geral não é uma sensação confortável por ser tudo muito fechado e escuro. O comércio é divido por setores e o que mais me chamou a atenção foi o setor chinês: praticamente uma 25 de Março, com tênis Nike e Adidas, camisetas de marcas famosas e bolsas falsificadas. Esse contraste é muito bacana, porque duas ruas depois você um tiozinho de 70 anos trabalhando como sapateiro.

Na prática, a medina deve ser muito parecida com uma favela - deve ser porque nunca entrei em uma favela. Pelas imagens que vemos da Rocinha, no Rio de Janeiro, por exemplo, com o comércio a todo o vapor, motos pelas ruazinhas e muita gente indo ou voltando do trabalho ou da escola, é basicamente a mesma coisa.

Neste dia também fomos enganados. Eu queria comprar um cartão SIM para ficar com internet o tempo inteiro - é um hábito em todas as viagens - e fizemos uma verdadeira via crúcis atrás de uma loja. Encontramos um lugar bem estranho, um misto de loja de eletrônicos com cabines telefônicas e computadores com acesso à internet, além de funcionar como correspondente bancário. Compramos o cartão por 10 euros e, em teoria, era para funcionar depois de 30 minutos, mas é claro que não funcionou nunca. Só consegui o cartão depois de ir a uma loja oficial de uma das operadoras do país, a Inwi. Por mais 10 euros, finalmente eu tinha internet o tempo inteiro com uma velocidade bem razoável e sem limite de gasto.

No final do dia, o que era para ser algo agradável foi praticamente uma tortura. Havíamos reservado um banho e uma massagem no riad, mas nunca vi uma mulher tão pequena com tanta força na minha vida. A massagista deveria ter um metro e meio de altura e era super magra, mas as mãos pesavam uma tonelada. Depois de 50 minutos de aperta daqui aperta de lá, saí da massagem super dolorido e lembrei dela por mais uns dois dias . . . Ao menos, novamente, conseguimos tomar um vinho no jantar para relaxar um pouco.


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