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Quinto dia no Marrocos: o trauma de passar a noite no deserto
Publicado em: 26/01/2015

Ela
Tomamos café da manhã num pátio com vista para as dunas e o mais impressionante é a forma como a areia reflete a luz, deixando tudo avermelhado e lindo. O dia começou com um tour ao redor das dunas, e o Ali (nosso motorista), que se gabava de ser bérbere, ficou brincando de Rally Dakar mais uma vez; e o mais curioso é que, apesar de ele se intitular o verdadeiro expert do deserto, por muitas vezes pareceu perdido, porque não há estradas nem sinalização.

Nossa primeira parada foi num acampamento nômade, que tornou-se a experiência mais exótica e isolada da minha vida. Não sabíamos que iríamos parar ali e lembro que de longe vi um menino caminhando em direção à uma barraca. Pensei que estava se escondendo do carro, mas logo após percebi que ele estava correndo para nos recepcionar. O carro estacionou ao lado de um tapete e, mesmo achando estranho, descobri que era para a gente descer do carro e não pisar na areia. Deve ser a típica boas-vindas do deserto.

E lá vem o Hassan, o garoto que estava correndo, nos encontrar. Conhecemos o quarto, a sala, o forno e a cozinha, e Ali nos explicou um pouco sobre a vida deles enquanto o menino estendia uns tapetes sobre colchões para podermos sentar. Sua mãe fez um chá, mas como a água estava guardada nuns galões de plásticos amarelados, não tive coragem de tomar. Hassan ainda bateu bola com o Cesar e logo depois pegou meu iPhone e começou a tirar fotos e fazer selfies com uma desenvoltura impressionante para operar o telefone, provavelmente resultado do contato com os estrangeiros. Depois de algum tempo, ele não queria me devolver o celular, mas de nada adiantaria deixá-lo lá porque eles vivem em isolamento total e não tem energia elétrica, água, esgoto e todo o pacote do que consideramos civilização.

Acho que poderia dizer que o sentimento que me tomou naquele momento foi de compaixão; seria fácil ter pena, mas eles desconhecem como vivemos e são felizes com a própria vida. Vivem uma vida digna, são trabalhadores e nunca vão sair de lá porque não tem para onde ir e provavelmente não sobreviveriam em outro lugar.

Em seguida visitamos a aldeia de Khamlia - conhecida como a aldeia da música gnaoua. Achei um saco, coisa pra turista comprar CD.

Fomos de dromedário para o acampamento onde iríamos passar a noite no deserto (descreverei essa a experiência no próximo post). No meio do caminho paramos para ver um pôr do sol sensacional, cujo horizonte e a vastidão tornam essa imagem espetacular, lindo de morrer. Após duas horas chegamos ao acampamento e, como de praxe, veio o chá de menta e na sequência nos levaram para uma tenda feita com tapetes, incluindo o banheiro e a porta. Nessa altura já estava bem gelado, mas não sabíamos que o frio durante a madrugada seria insuportável. Jantamos, o pessoal do staff tocou tambor e só então pude ver o céu mais estrelado da minha vida, todo abobadado com nebulosas, estrelas, planetas, estrelas cadentes.....

Nestes momentos me sinto pequena diante de tanta grandeza. Esse foi um dia para se acreditar num Deus, porque certamente existiu uma energia presente durante o dia e noite, coisas da natureza.

Ele
Eu achei que o primeiro dia no deserto já havia sido chocante demais, mas mal sabia o que estava por vir no nosso quinto dia de viagem e segundo no deserto. A memória mais forte - além do medo de estar no meio do nada - é da visita que fizemos a uma família nômade, que mora em barracas sem nada por perto num raio de uns 20 quilômetros. O acampamento é uma reprodução de uma casa: sala, cozinha e quartos, mas tudo feito com pedaços de pau segurando tapetes e tecidos. A cozinha construída com barro tinha dois metros quadrados, com um foguinho para aquecer água e preparar alguma comida.

O choque de realidade foi absurdo. Não tive dó nem nada do tipo, mas é muito impactante ver as pessoas vivendo daquele jeito. É claro que para eles não é nada demais, porque a realidade é aquela, mas fiquei bem chocado, tanto que não consegui tirar fotos das tendas nem da família que nos recebeu para tomar um chá e oferecer alguns amendoins. (A foto ao lado foi feita pela Silvia)

A mulher quase não falou e o nosso motorista explicou o tempo todo que eles são muito felizes vivendo ali, talvez por conta da minha incredulidade. É claro que o choque passa e voltamos a nos preocupar com o novo modelo de iPhone ou qualquer outra coisa que faz parte da nossa vida cotidiana na cidade, mas ali, naquele exato momento, é impossível não ter um rompante de largar tudo e ter uma vida o mais simples possível. É claro que isso não vai mudar e estou escrevendo este texto confortavelmente no meu iMac num ambiente climatizado e tudo o mais, entretanto, ao menos naquele momento único, talvez por vinte minutos, estar ali e ver aquela realidade tão crua e real, me faz pensar em muitas coisas...

Neste dia passamos a noite literalmente no deserto, em um acampamento um pouco distante do hotel - não consigo precisar a distância porque fomos de dromedário. A ida foi um pouco tensa: subir no bicho é um pouco difícil e a cela é meio tabajara e não muito bem adaptada à corcunda. Depois de 20 minutos aos trancos e barrancos pelas dunas de areia fofa, eu já estava totalmente arrependido da ideia e, durante uma parada, pedi para ir o restante do trajeto caminhando. Andar pelas dunas é uma tarefa árdua, porque a areia é realmente muito fofa e os pés afundam a cada passada, mas consegui chegar ao acampamento sem grandes prejuízos - só muita areia dentro da bota, nos bolsos e roupas e até na orelha!

Uma dica: se um dia você for ao deserto, lembre-se de ir com roupas confortáveis e quentes, sobretudo porque o inverno é mais rigoroso do que no Brasil. Sempre achei estranho aqueles turistas europeus de calças de tactel e botas tipo Timberland, mas parece ser o mais adequado para o deserto, e descobrimos isso da pior maneira possível.

Os dromedários param um pouco antes do acampamento num estacionamento improvisado para eles. Neste momento descobrimos que a garrafa de vinho que levamos havia caído em algum momento. Sem dar tempo de falarmos nada, o guia sai correndo na direção que viemos para resgatar nosso vinho, e ficamos ali num escuro total, sem ter a menor ideia do que fazer. Depois de uns vinte minutos, eis que surge o nosso guia com a garrafa e um sorriso de felicidade por ter encontrado.


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