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Sexto dia no Marrocos e uma conclusão: o deserto é lindo, mas cansa
Publicado em: 29/01/2015

Ele
Depois da noite mais mal dormida da minha vida, graças à pouco confortável cama do acampamento, voltar do meio do deserto para o hotel não foi nada agradável. Além de muito desconfortável, o dromedário que deveria me carregar estava muito temperamental, brigando com o dromedário da frente, querendo sair em disparada e mordendo a perna da Silvia. Como eu já estava todo dolorido e com um pouco de medo, achei melhor ir caminhando praticamente o trajeto inteiro, o que não foi nada legal também, mas consegui chegar ao final.

Passamos no hotel somente para pegar nossas coisas e seguimos rumo a Ouarzazate. Não era muito longe, uns 180 quilômetros, mas possivelmente pelo cansaço acumulado, acabou se tornando o pior dia de todos. O lugar não chegava nunca e minha paciência com o motorista estava perto de zero. Foi um dia basicamente de deslocamento, sem grandes atrações. Não via a hora de tomar um banho e deitar em uma cama um pouco mais confortável do que a do deserto.

A única parada foi nas gargantas de Dades, umas montanhas rochosas enormes com uns loucos escalando. O que mais marcou não foi a paisagem natural, mas sim uma mulher e duas crianças com traços bem diferentes dos outros marroquinos. Ela estava pedindo dinheiro, mas não demos. A Silvia queria dar alguma coisa para tirar fotos, mas, da mesma forma que aconteceu com a família no acampamento bérbere (leia mais aqui), não acho que seja muito bacana e prefiro não tirar a foto. A Silvia acabou desistindo também, mas se arrependeu depois.

Isso acabou virando o assunto do jantar: o lance ético de explorar, digamos assim, a situação destas pessoas tão exóticas para nós e fazer fotos. Falamos sobre Sebastião Salgado, que eu não gosto nem um pouco, e minha linha de comparação é sempre dos gringos nas favelas brasileiras achando tudo aquilo muito legal e interessante. Como brasileiros não achamos as favelas tão interessantes assim porque conhecemos todo o contexto. Ali no Marrocos, talvez com exceção da família realmente nômade, não sabemos a real situação desta população que pede coisas para os turistas, logo, com contradições ou não, não é muito legal explorar esta imagem.

No caminho sem fim para Ouarzazate não parei de pensar que o Marrocos é o país da terra: além de ter realmente muita terra, basicamente poeira, tudo tem esta cor, ou ao menos ela predomina: na pele das pessoas, nas paredes das casas, nos carros empoeirados, nas montanhas, nas ruas... O único contraste são algumas palmeiras em alguns lugares, os picos nevados do alto atlas e as roupas das mulheres, mas de resto parece tudo uma grande paleta de cores terrosas.

Ela
O dia mais cansativo até agora. O Ali dirigiu como uma tartaruga até o riad Dar Chamaa, em Ouarzazate . Até pode ser que ele tenha que cumprir horários, mas contratamos uma excursão particular exatamente para termos liberdade de fazer como bem entendemos, e neste dia deixamos bem claro que estávamos exaustos e queríamos chegar ao hotel o mais rápido possível, o que não aconteceu. A exaustão era tanta que, ao chegarmos ao riad, dispensamos o chá, atitude considerada rude pelos marroquinos, mas a gente precisava mesmo deitar, tomar um banho quente e descansar.

Por sorte, os donos do hotel eram espanhóis e curiosamente o jantar foi uma delícia. Apesar de ser comida marroquina, tinha um toque espanhol, o que naquelas alturas foi muito bem-vindo, porque já não aguentava mais a tradicional comida regional e acredito que a influência espanhola evitou a cara feia dos garçons ao pedirmos vinho (os muçulmanos não bebem e a grande maioria não gosta muito da ideia de as pessoas consumirem álcool).

O cansaço provavelmente foi porque levantamos super cedo para ver o nascer do sol no deserto, depois de uma noite horrível porque a cama era dura, fez muito frio e eu senti muita dor no corpo depois do passeio de dromedário. Na verdade, a dor pode ter sido causada pelo frio congelante da madrugada. Noite sem dormir, frio, dor no corpo e, para ver o sol nascer, ainda tivemos que escalar uma duna. Quase desisti porque não tinha forças, principalmente para caminhar na areia fina com o pé afundando o tempo inteiro. O Cesar me ajudou a subir e, no final das contas, o esforço foi recompensado pela vista grandiosa de um vale. O sol nasce, a temperatura sobe e a areia começa a mudar de tom, ganhando uma cor avermelhada, que é linda.

Quando reservamos o acampamento no deserto, cujo pacote também incluiria o passeio de dromedário, não imaginei que levaríamos 2 horas para ir e outras 2 horas para voltar. Pensei que seria um passeio para turista ver, de uns 15 minutos em cima do bicho, e que no dia seguinte voltaríamos num confortável 4X4. Após perceber o meu grande engano, passei a imaginar que seria impossível que nosso acampamento estive tão longe. O passeio, além de não ser nada agradável, ainda me matou de medo e levei uma mordida do dromedário. Se fosse possível caminhar pelas dunas, teria voltado caminhando, mas é extremamente difícil atravessar o deserto andando.

Apesar de tudo, ver a noite estrelada mais linda da minha vida valeu todo o sofrimento.


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